O Barqueiro de Kerala

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Em 2014 tive a oportunidade de fazer alguns cursos no programa de doutorado da Universidade de Genebra. Já sabia da incrível inteligência e capacidade dos indianos mas não esperava encontrar tantos estudantes dessa nacionalidade na instituição e principalmente, de Kerala.

Sabia que aí, as taxas de analfabetismo eram quase nulas, o sistema de saúde básica praticamente universal e a política, tendia ao socialismo em um dos conhecidos redutos do comunismo na Índia. Mesmo assim, fiquei bastante intrigada. Será que era apenas uma questão de um estudante abrir as portas para o próximo, ou haveria outra razão?

Em 2015, finalmente fiz minha primeira viagem ao sul da India. Depois de mais de uma década viajando pelo Decan, Kerala há muito, esperava na minha lista de destinos.

Assim como Jorge Amado escreveu os cheiros, o gosto e as cores da Bahia, foi Arundhati Roy, quem primeiro apresentou Kerala à minha imaginação sensorial. ”Velutha” já haveria de me aguardar em algum canto desse terra de tantos encantos e de uma cultura tão própria, tão autêntica.

Foi durante um passeio pelas “backwaters” e suas comunidades ribeirinhas que entendi um pouco mais sobre essa cultura tão peculiar e sua forma de viver “em rede”.

O barqueiro, durante todo o dia, utiliza apenas uma vara com a qual empurra o barco cheio de turistas.

O barqueiro vai e vem, vai e vem, vai e vem.

Paciência. Os indianos têm de sobra.

O tempo é lento, o sol, quente, a paisagem é muda, praticamente estática.

O celular não pega, não há listas de coisas à fazer, o tempo não corre mais, anda em passos largos, quase imperceptível.

Assim, lentamente, a impaciência e irritação começam a ceder e uma calma vai se instalando.

Há algumas paradas para visitar as comunidades que se organizam em cooperativas de tudo que se possa imaginar: fibra de coco, pó de ostra para remédios, adubo, cordas.

As crianças estão nas margens, brincando nas águas ou, uniformizadas, indo à escola. sabem onde é o Brasil (e não só por causa do futebol!), conhecem sua própria história e têm muita sede de aprender.

O guia, um senhor mais velho, nos faz demonstrar como se tece uma corda feita de fibra de coco. Ao final, testa a resistência das fibras sozinhas e depois trançadas em grossa corda. Lembra à todos então, que assim como a corda, essas comunidades todas dependem da união para se fortalecerem.

Faz-se de guia e de líder comunitário.

A cada nova comunidade visitada, ia aumentando minha admiração pelo grau de consciência que as pessoas locais tem do exercício da sua cidadania e da necessidade de organização social. Isso me fez pensar que a consciência política nada tem a ver com o poder econômico. Sem relevar as relações entre religião e alienação política, Kerala impressiona pela delicadeza do seu ecossistema, tão frágil e tão intricadamente interdependente, e pela força e resiliência de seu povo, uma trama social estruturada em comunidades e cooperativas que são a base da corporação.

Nesse contexto, não é difícil perceber como a educação emancipa, ensina a pensar. Como cita Amartya Sen, “Free Agency” não é apologia ao capitalismo, que coloca a satisfação individual à frente de tudo e de todos. “Free Agency” é a liberdade necessária para se desenvolver, para pensar e questionar o entorno, para escolher.

O Brasil anda precisando de educação e de “Free Agency”.

Kerala não foi apenas um lugar de cultura ímpar, natureza magnífica e um povo tão gentil mas uma oportunidade de observar que estamos mesmo todos interconectados.

Por DWARI (Patricia Barbuscia)

Kerala
Pintura de Dwari
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6 comentários em “O Barqueiro de Kerala

    1. Olá Sérgio, obrigada pelo retorno, vc tem interesse em conhecer as condições para viajar para a Índia? Temos dois grupos saíndo em janeiro e em fevereiro de 2017. Posso mandar o roteiro e valores se vc estiver interessado. abraços Anita Gouveia

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    1. Olá Branca. Obrigada pelo retorno. A Índia é realmente fascinante. Se vc puder nos ajudar a divulgá-la agradecemos e, caso tenha interesse, podemos encaminhar informações sobre dois grupos que sairão em janeiro e fevereiro, respectivamente. Abraços e Namastê.

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